quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PICHE (CART 2440) – Parte 1 - Actividade Operacional no período de Novembro e Dezembro de 1968 e Janeiro de 1969.

ACTIVIDADE OPERACIONAL
                 Cracha cart 2440 (2)                       
Até final do mês de Janeiro de 1969, o IN praticamente não se manifesta, apenas havendo a assinalar. 

Em consequência dessa ausência nota-se uma calma total entre as populações que desenvolvem a sua actividade de maneira absolutamente normal, mostrando-se confiante nas NT.

Durante os meses de Novembro e Dezembro de 1968 e Janeiro de 1969, efectuam-se vários patrulhamentos e montam-se várias emboscadas; são levadas a cabo várias Operações e Acções. 

Em 24nov68 – um Grupo de combate da Cart 2440 patrulha as vias de acesso às tabancas de Norte e Sul de Piche.

Em 26nov68 – a Cart 2440 inicia a Operação «MURÇA» que consiste num patrulhamento de combate na zona do sub-sector a Norte da estrada de Nova Lamego e fazendo limite com a do BCaç 2835. 
A 27Nov68 a Cart 2440 termina a sem contacto nem vestígios IN.

Em 10dez68 – começa a Operação «MICRÓBIO» executada pela Cart 2440 e que consta de um patrulhamento de combate passando por Cambajã, Camidina, Tambandinto e Sutocó. 
A 11dez68 termina sem vestígios nem contactos IN.

picheoperaçãoMICÓBIO

Em 16dez68 – a Cart 2440 dá início à Operação «MANCARRA» – patrulhamento passando por Bentem, Dembacunda, Tambandinto, Sutocó e Sagoiá
Em 17dez68 termina, sem nada assinalar.

Em 21dez68 – início da Operação «MATACANHA», que consiste num patrulhamento de combate, partindo de Piche e seguindo até Segar e Sinchã Dadi, com regresso por Canhamonde, executada pela Cart 2440. A 22dez68 termina sem indícios nem contactos IN.

Em 03Jan69 – a Cart 2440 dá início à Operação «MIMI», que consiste num patrulhamento de combate passando por Madina Tambachã, Tambansinto, Cojane, Colicunda, Sutocó, Coache, Sagoiá. Em 04JAN69 termina a Operação sem contactos nem vestígios IN.

Em 09Jan69 – um Grupo IN não estimado, entrou às 18:30 horas, por três direcções na povoação de Ieromaro (Nova Lamego 7 A-6) armado de armas automáticas 7,62mm.
Não executou fogo. 
Roubou roupas à população e fugiu. 
A informação foi fornecida por um nativo de Ieromaro, que chegou ao Bart 2857 às 21:00 horas, de bicicleta.
Dois Grupos de combate da Cart 2440 com uma secção de caçadores nativos, dirigem-se às 21:30 horas, em viaturas, até Bentem e depois apeados até Cambajã.
Foram executadas concentrações de fogo de artilharia flagelando os itinerários para Ieromaro, do lado Sul, causando dois feridos entre a população civil, um ligeiro, e outro dando origem a evacuação.

Em 10Jan69 – a Cart 2440 actua em coordenação com a CCaç 2403.
Não houve contactos com o IN; são encontrados vestígios da sua fuga para Sul.
Regressa a Piche a Cart 2440.
De salientar a atitude do Régulo de Piche, que, voluntariamente acompanhou as NT.

Em 10Jan69 – o Comandante do Bart 2857 desloca-se a Nova Lamego, a fim de tomar parte na Operação de perseguição ao IN, revelado, em 09JAN69, em Ieromaro.

Em 11Jan69 – a Cart 2440 parte para Nova Lamego, a fim de tomar parte na Operação de perseguição ao IN, revelado em Ieromaro, na Operação «CHEGA PERTO».

Em 12Jan69 – a Cart 2440 regressa do Sector L-3 (Nova Lamego) da Operação «CHEGA PERTO»

Em 13Jan69 – regressa o Comandante do Bart 2857, que fora comandar, no Sector L-3, a Operação «CHEGA PERTO».

Em 15Jan69 – o Comandante do Bart 2857 desloca-se a Nova Lamego, a fim de tratar de assuntos Operacionais, regressando no mesmo dia.

Em 16Jan69 – o Comandante do Bart 2857 visita os trabalhos de organização de auto-defesa em Sinchã Lali.

Em 17Jan69 – a Cart 2440 dá início à Operação «DEVE COMER», que consiste num patrulhamento de combate na região Norte do subsector, passando por Capassa, Sagar, Sinchã Moli, Binam Alimo, Sinchã Dadi e Sinchã Lali.

PicheOperaçãoDEVECOMER 

Em 18Jan69é antecipado o fim da Operação «DEVE COMER», devido ao facto de o efectivo empenhado ser necessário para guarnecer o aquartelamento de Canquelifá para a Cart 2439 poder efectuar a Operação «GOMA FRESCA»

Em 18Jan69 – o Comandante do Bart 2857 desloca-se a Canquelifá. Regressa no mesmo dia.

Em 22Jan69 – a Cart 2440 desloca-se ao Sector L-3 a fim de tomar parte na Operação «PENETRA CERTO». Em 25Jan69 a Cart 2440 regressa do Sector L-3 após ter participado na Operação.

Em 22Jan69 – o Comandante do Bart 2857 desloca-se ao Sector L-3 a fim de comandar a Operação «PENETRA CERTO».  
Em 25Jan69 o Comandante do Bart 2857 regressa de Nova Lamego onde se deslocara a fim de comandar a Operação «PENETRA CERTO».

Em 23Jan e 24Jan69 – o 12.º PEL ART.ª executa fogos de apoio à Operação «PENETRA CERTO» (Sector L-3).

Em 29Jan69 – regressa de Camajabá o Grupo de combate da Cart 2440 que ali se encontrava em reforço aquele destacamento.

Em 29Jan69 – pelas 20:30 horas dois civis de Cambajã, apresentaram-se na Sede do Bart 2857 informando terem detido junto da sua tabanca um elemento suspeito. 
A Cart 2440 parte a fim de patrulhar a zona de Cambajã
Em 30Jan69, regressa a Cart 2440 sem ter encontrado qualquer vestígio IN.

Vide Poste
Foto do Bart 2857: Direitos Reservados

domingo, 17 de abril de 2016

NOVA LAMEGO/BURUNTUMA (CART 1742) - 02 - História da Companhia

Agradecemos a gentileza de ABEL SANTOS (ex-soldado Atirador da Cart 1742 - "Os Panteras", - Nova Lamego e Buruntuma 1967/1969), assim como ao Blogue de Luis Graça, a possibilidade de contar a História da Cart 1742 que foi elaborada por Alberto Alves, um dos Panteras, em Maio de 2007, para ser distribuída pelos camaradas presentes num dos Encontros desta Unidade.

Para nós administradores do Blogue do Bart 2857, que esteve no Sector Leste L-4, com sede em Piche de Novembro de 1968 a Outubro de 1970, é uma honra.

Assim que tomamos a responsabilidade do sector e nos instalamos, esta Companhia, sediada em Buruntuma, passou a ficar sob a responsabilidade operacional deste Batalhão.

Um dos dos objectivos deste Blogue é, não só, contar toda a actividade operacional, nesse período deste Batalhão, assim como de todas as Companhia Independentes ou unidades de Intervenção que connosco conviveu e nos ajudou a controlar o Sector em termos operacionais.
Além do mais, procuramos relatar a operacionalidade de todas as outras Unidades que, no tempo, se foram substituindo, até à independência.

Desta Companhia iremos utilizar toda a informação e actividade, uma vez que na nossa História da Unidade, como é óbvio, só temos a informação operacional enquanto esta unidade esteve connoco.

Desde já o nosso obrigado, pela informação e por toda a operacionalidade e perigos que comumente passamos nesse período. 

HISTÓRIA DA CART 1742

... Nessa medida, começaram a ser constantes as "viagens" pelas picadas ladeadas de capim alto, pelas bolanhas (terras alagadiças) ou pelo interior da mata densa, misteriosa e perigosa.
Umas vezes (a grande maioria das vezes) a caminhar, outras utilizando as viaturas, lá íamos cumprindo o nosso papel, sempre com a cautela e a atenção próprias de cada momento e a responsabilidade o exigia, mas sempre esperançados de que as coisas iriam correr pelo melhor...
A época das chuvas era a mais delicada; as vias de comunicação (picadas) ficavam alagadas e tornava muito difícil o curso das viaturas que constantemente ficavam atoladas e inviabilizavam a "picagem" dos acessos na procura de uma qualquer mina anti-carro.
A par disto, também as caminhadas se tornavam complicadas pelo efeito das chuvas e pelo alagadiço do terreno onde o capim começava a crescer.
Era necessário uma boa condição física e uma moral forte.

... Mesmo assim, o Natal de 1967 haveria de constituir já uma marca de grande amargura, na medida em que dois dos nossos companheiros tinham deixado o mundo dos vivos: o Neto, vítima de uma mina anti-pessoal quando num patrulhamento normal e já no declinar do dia preparava o local para passar a noite; e o Sousa, morto em combate na difícil e complicada operação militar feita em Sinchã Jobel em plena mata do Cantanhez, em 19 de Dezembro daquele ano de 1967.
Aqui no Cantanhez existia uma base estratégica do "inimigo", que servia de apoio às intervenções militares que operavam e era também uma base de treino político e militar.
O ataque que então fizemos a esta base não correu bem, pois de um momento para o outro fomos envolvidos e tivemos que proceder à retirada de uma situação bastante complicada e aflitiva. Ainda hoje não sei como não sofremos um maior número de baixas, pois fomos apanhados no meio de tiroteio intenso ao longo de uma bolanha que parecia não ter fim.
Para além do Sousa outros sete companheiros de outra Companhia e, de entre eles, um alferes (que festejava o seu aniversário natalício), completaram a lista e o balanço trágico de mortos, naquela que foi, talvez, a operação militar mais complicada...
Sim ...
Porque se juntarmos a isso o efeito psicológico dos que andaram perdidos e as preocupações e a ansiedade de todos quantos estiveram envolvidos nos trabalhos inerentes à sua procura e recuperação ...
... Para não comentar que alguns dos que estiveram envolvidos neste trabalho, de entre os quais o nosso capitão, caíram na zona de morte de uma emboscada que nos foi montada, mas que felizmente (não sei bem porquê) não funcionou ...
Não refeitos desta tristeza, voltaríamos a estar envolvidos numa emboscada nocturna, cujos resultados se cifraram em grande número de feridos, alguns com certa gravidade e a necessitarem de evacuação, para além de um desaparecido ...

O palco desta acção foi o Monte Siai - uma pequena elevação de terreno situada a Este de Nova Lamego - no dia 11 de Janeiro de 1968.
O dia seguinte ficaria ainda marcado pelas mortes do Major Pedras e do Furriel Miliciano de Engenharia, Jorge, vítimas de minas anti-carro e anti-pessoal. Estes dois companheiros iam fazer uma inspecção à jangada que se encontrava no rio Corubal, no destacamento do Cheche e que servia para a travessia do rio, do pessoal e das viaturas, aquando das colunas de reabastecimentos aos aquartelamentos de Béli e Madina do Boé, nas colinas do Boé.

Pitche, Pirada, Canquelifá, Cheche, Camajabá, Caium, Canjadude, Cabuca e respectivas zonas envolventes eram destinos várias vezes cumpridos em patrulhas normais, feitas a nível de um ou dois grupos de combate (cada grupo de combate era constituído por três secções de oito homens; o armamento que equipava cada grupo de combate constava de um morteiro 60, uma bazuca e uma metralhadora pesada (MG), cabendo a cada um dos elementos do grupo o transporte das respectivas granadas e fitas com projecteis para a metralhadora; além disso cada homem carregava a sua G3 e vários carregadores e, quando a situação o recomendava, mais uns sacos de munições para a respectiva arma. Quando nos percursos efectuados se usavam viaturas, estas transportavam alguns cunhetes de munições de toda a espécie).
As colunas de reabastecimento a Beli e a Madina eram sempre encaradas com grande rigidez e até preocupação. Até porque, só eram possíveis com apoio aéreo constante, feito pelos bombardeiros, vulgo T6. A zona do Boé era controlada pelo convencionado "inimigo" que ali dominava e tinha o seu Quartel General. Foi ali mesmo que o PAIGC proclamou a independência da Guiné em 23 de Setembro de 1973, doze dias depois da morte de Amilcar Cabral.
Sempre tivemos sorte, pois nunca fomos incomodados, apesar de uma das vezes a travessia do rio Corubal não ter corrido pelo melhor... e da segunda vez que fomos a Béli sofremos um enorme ataque (que nos retardou a marcha em cerca de uma hora) feito por milhares de abelhas selvagens que provocaram estragos em muitos rostos e outras partes do corpo. Houve companheiros que ficaram com a cara irreconhecível de tão inchada.
Há medida que o tempo decorria, aumentavam os níveis de ansiedade, notando-se mesmo algumas perturbações do foro psicológico, principalmente naqueles que já tinham muito mais tempo de Guiné do que nós. Na realidade a pressão da guerra e as incertezas que ela transmitia eram a causa primeira; se a isto juntarmos muitos momentos de solidão causados pela ausência da família e pela distância de casa mais o clima quente e muito húmido próprio das localidades próximas da linha do Equador, nada estranhava que acontecessem aquele tipo de perturbações mentais. Era realmente necessário ser-se forte de corpo e alma e tentar encarar todas as situações com grandes doses de fé e de esperança.
Por isso é que a hora do "correio" era sempre esperada com grande entusiasmo e alegria e, também, com alguma ansiedade, pois até nestas alturas havia a incerteza da chegada de notícias dos que nos eram mais chegados e queridos, se bem que as notícias tinham sempre algum tempo de atraso em relação aos dias em que eram recebidas.
Por isso é que ... se uns se alegravam com a chegada da carta ou do aerograma, para outros a decepção das mãos vazias pela falta de notícias era sinónimo de grande tristeza e até preocupação... Vivia-se muitas vezes, apenas e só, com o eco daquela palavra de magia: Correiiiooo...

As campanhas em África compreendiam duas situações: uma primeira destinada a uma intervenção activa, bastante operacional e por isso mesmo muito desgastante, quer física quer psicologicamente; este período ocupava os primeiros oito a nove meses. A outra situação a que vulgarmente chamávamos de descanso, permitia que as Companhias se instalassem em determinado aquartelamento e a partir daí desenvolvessem algumas operações, mais concretamente o patrulhamento da zona envolvente.
Naturalmente que esta segunda situação se tornava mais relaxante, apesar de se permanecer em constante vigília e atenção, pois sossego, sossego, não existia.
Todos ansiavam, pois, que os primeiros tempos passassem rápido e sem grandes sobressaltos.
O tempo em que permanecemos operacionais foi, de facto, muito cansativo, apesar de termos bastante sorte no que respeita a contactos com o convencionado "inimigo". Durante esse tempo tivemos duas baixas, mas sempre que éramos chamados para a intervenção, os corações batiam apressadamente pois sempre nos esperava o desconhecido e em qualquer momento podia surgir a emboscada ou a surpresa das minas anti-carro e/ou anti-pessoal.
Daí que, quando chegou a notícia e a ordem par que a Companhia se dirigisse para a sua instalação definitiva, sentíssemos um pouco mais de alívio.

NOVA LAMEGO/BURUNTUMA (CART 1742) - 01 - História da Companhia


Agradecemos a gentileza de ABEL SANTOS (ex-soldado Atirador da Cart 1742 - "Os Panteras", - Nova Lamego e Buruntuma 1967/1969), assim como ao Blogue de Luis Graça, a possibilidade de contar a História da Cart 1742 que foi elaborada por Alberto Alves, um dos Panteras, em Maio de 2007, para ser distribuída pelos camaradas presentes num dos Encontros desta Unidade.


Para nós administradores do Blogue do Bart 2857, que esteve no Sector Leste L-4, com sede em Piche de Novembro de 1968 a Outubro de 1970, é uma honra.

Assim que tomamos a responsabilidade do sector e nos instalamos, esta Companhia, sediada em Buruntuma, passou a ficar sob a responsabilidade operacional deste Batalhão.


Um dos dos objectivos deste Blogue é, não só, contar toda a actividade operacional, nesse período deste Batalhão, assim como de todas as Companhia Independentes ou unidades de Intervenção que connosco conviveu e nos ajudou a controlar o Sector em termos operacionais.


Além do mais, procuramos relatar a operacionalidade de todas as outras Unidades que, no tempo, se foram substituindo, até à independência.


Desta Companhia iremos utilizar toda a informação e actividade, uma vez que na nossa História da Unidade, como é óbvio, só temos a informação operacional enquanto esta unidade esteve connoco.


Desde já o nosso obrigado, pela informação e por toda a operacionalidade e perigos que comumente passamos nesse período. 

HISTÓRIA DA CART 1742

Tudo começou aqui ...

A cidade de Penafiel, no distrito do Porto era detentora de unidade militar denominada Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5 (RAL 5) e ali já se encontravam duas companhias cujos soldados recebiam formação correspondente àquilo a que se chamava especialidade.

Depois da Ordem de Mobilização a formação da Companhia de Artilharia (Cart) 1742 não se fez esperar.


Corria, então, o mês de Abril de 1967 e todos sabiam que o destino  era a Província da Guiné, algures na África Equatorial ...

Uma mobilização para a Guiné significava terror, pois dizia-se na altura que a Guiné era o "Vietname Português"; logo, maior castigo para os jovens de então, não poderia haver, na medida em que o risco de regresso era uma grandeza incerta. 
Não admirava, pois, que entre nós surgissem os mais variados comentários, muito embora aceitássemos "pacificamente" a imposição do serviço militar obrigatório e tudo o que lhe estava subjacente.
Mas não admirava que assim fosse, pois a educação nacionalista a que fomos sujeitos, tanto em casa como na escola, acrescida de uma cultura ou mesmo ignorância política transformava-nos em cidadãos pouco esclarecidos e consequentemente mais submissos.

Como a maior parte dos elementos que integravam a Companhia já se encontravam em Penafiel, aos poucos foram chegando outros, designadamente Cabos Milicianos, que iriam completar os respectivos pelotões. A estes, juntaram-se igualmente os Quadros Administrativos, pessoal do sector de enfermagem, de transmissões e da cozinha.


... A princípio a "guerra" não passou de uma "brincadeira" feita nos montes que rodeavam a cidade, pese embora o interesse nas aprendizagens e o sentido de responsabilidade sobre tudo quanto respeitava a técnicas de guerra subversiva.

Por isso o mês de Maio foi intenso na preparação técnica e física e ... também ... psicológica, a ponto de muitos de nós terem escondido a data de embarque ...
Aos poucos ia-se tomando conhecimento de situações que poderiam vir a acontecer, ainda que posteriormente viéssemos a verificar que a realidade prática era bem diferente.
Fosse como fosse, também ficou comprovado " a la longue" que o que se aprendeu foi de grande utilidade.

Mas ...

Quando a vinte e dois de Julho de 1967 o navio "Timor" largou as calmas águas do rio Tejo e serenamente sulcava as profundezas e a imensidão do Atlântico, deixando para trás as lágrimas e os gritos de dor e aflição dos familiares e amigos que no cais de embarque, junto ao Tejo, se despediam da rapaziada, o pensamento já era outro e a vontade e a esperança no regresso, passou a fazer parte do dia a dia ...



Os cinco dias de viagem mostraram-nos a beleza do universo marítimo, nos variados tons de azul das águas atlânticas, da espuma de sal a flor das ondas revoltas, da variedade de peixes e nos bailados acrobáticos dos golfinhos que de quando em vez surgiam a acompanhar a rota seguida pelo navio.


Encantador, também, o azul do céu carregado de estrelas ou o entardecer coado a negro com a proximidade da noite, depois de um por do sol esplendoroso que pintava nas escuras águas do oceano uma cor forte de fogo que o horizonte absorvia com suavidade e ternura.


Encantadora foi também a visibilidade da trovoada instalada ao longe, com os raios a riscarem os céus em impressionantes ziguezagues, que se faziam reflectir na imensidão do mar, dando-lhe uma cor e uma luz de rara beleza.
Porém, nem tudo era agradável, na medida em que os soldados, instalados em piso inferior, sofriam no corpo e na alma os efeitos do balouçar do navio e também do calor e da humidade que, com o aproximar da linha do Equador, agravava a situação e tornava insuportáveis as horas e ... muito longos ... os dias ...

Para muitos, começava aqui uma vida agoniante, dolorosa, a ponto, talvez, de ainda sentirem o cheiro azedo motivado por indesposições e enjôos...


Até alguns dos bem instalados, porque mais sensíveis, sentiram na pele amargos de boca que os deixavam desfalecidos e terrivelmente agoniados e ansiosos.



Cidade desconhecida, Bissau recebeu-nos com simpatia e surpreendeu-nos com o traçado moderno das suas largas e rectilíneas e pela novidade de uma temperatura muito elevada e húmida, transmitindo-nos o característico cheiro mítico da terra africana, deixando perceber o movimento social, a alegria, a preocupação, e até alguma nostalgia da população residente.
No íntimo de cada personagem morava a certeza da guerra de guerrilha e a incerteza das suas consequências...

A cidade de Bissau acolheu-nos durante algumas semanas, durante as quais nos habituámos aos comentários que corriam pelas ruas e cafés, originados pelos que, vindos do mato iam fazendo chegar novidades; outros saíam da boca de quem nunca saiu do aconchego da cidade, mas que sabiam mais de guerra do que os operacionais. 
"Engolimos" uma mão cheia de histórias, mas apercebemos-nos da realidade que se vivia no Hospital Militar e se estendia até às câmaras da morgue...


Antecipada pela subida do rio Gebaaté Bambadinca, numa viagem incómoda, feita no escuro da madrugada, a chegada a Nova Lamego (GABÚ) marcou o início da segunda etapa da nossa presença na Guiné.

Nova Lamego situava-se no planalto de Gabú e era dos únicos (ou mesmo o único) centro urbano localizado na zona interior da província, ainda que distasse de Bafatá algumas dezenas de kilómetros. 
A população vivia essencialmente de uma agricultura de subsistência onde predominava a cultura da mandioca e da batata doce, já que a produção de arroz e amendoim era quase na sua totalidade usada como produto para exportação.


A produção de gado bovino, caprino e suíno também aparecia em quase toda a zona envolvente.
Nesta localidade estava instalado um batalhão, cujas Companhias se encontravam estacionadas nos aquartelamentos dos arredores separados por alguns kilómetros.

Para além do Batalhão, estava aquartelada em instalações próximas uma Companhia chamada de intervenção em regra uma Companhia independente que, sem pertencer ao Batalhão, a ele era agregada para operar em toda a zona).

Dizia-se na altura que o PAIGC tinha como objectivo dominar o Norte e Leste da província, pelo que Nova Lamego era um dos pontos operacionais de risco, mas estratégicamenre muito importante.

Não causava admiração, por isso, que o "inimigo" flagelasse com alguma assiduidade os aquartelamentos onde estavam estacionadas as Companhias pertencentes ao referido Batalhão.

Chegados a Nova Lamego, logo deparámos com o edifício principal onde estavam instalados os Serviços de Administração Local e também a Polícia Administrativa (Cipaios), referenciados pela sua farda de cor amarelo-torrado.

... Outros edifícios sobressaiam, como aquele onde se instalava parte de um Batalhão Militar e ainda aqueles que foram destinados à nossa Companhia.


Em Nova Lamego havia algumas casas de comércio, exploradas, sobretudo, por libaneses, portugueses da Metrópole e naturais da Guiné. 


A venda de roupa, serviços de alfaiataria e
costura era a nota predominante, se bem que a venda de bebidas (café) fosse trabalho para uns quantos.

Juntava-se a isto um mercado típico, onde as pessoas compravam, sobretudo, produtos agrícolas.

Embora se notasse a existência de casas idênticas às de qualquer parte do mundo, a predominância eram as habitações indígenas que por cá se chamavam "Tabancas", que eram construções de forma cónica, encimadas por capim que lhes servia de tecto e telhado.

Sem dúvida que Nova Lamego era um centro de comércio onde afluía muita gente mesmo vinda do Senegal e da República da Guiné (Conacri)


Como Companhia Independente, a nossa presença em Nova Lamego era a de Companhia de Intervenção; o que na prática significava total disponibilidade para o envolvimento em patrulhamentos, operações militares de pequena ou grande envergadura, apoio a outras Companhias instaladas nas redondezas e quaisquer outros serviços que fossem solicitados ...
Fazíamos, por isso, um trabalho de vigilância contínua e permanente da zona ...

Todos os direitos reservados dos autores  Texto e fotos "História da Cart 1742"

quarta-feira, 13 de abril de 2016

CANQUELIFÁ (CCAV 2748) – Parte 2 – Actividade Operacional em Setembro de 1970

ACTIVIDADE OPERACIONAL
Em 05SET70 – dois Grupos de combate da CCAV 2748 reforçados com duas Secções do PEL MIL 267, desenvolve a Acção «MÉRTOLA» na região do RIO PÁDUA – SINCHÃ JIDE – MADINA UOLOTO. Não houve qualquer contacto nem vestígios IN.

Em 10SET70 – CANQUELIFÁ foi visitado por Suas Exªs o Comandante Chefe Adjunto e o Comandante do CAOP 2, que debateram com o Comando deste BCAV assuntos de maior interesse.

Em 10SET70 – inicia-se a Acção «MEDRONHO» levada a efeito por um Grupo de combate da CCAV 2748 reforçada com uma Secção do PEL MIL 267, patrulhamento na região do RIO PÁDUA – RIO PAINDI – RIO SANIEL – RIO CUNDICÓ – CANQUELIFÁ. Não há qualquer apontamento digno de se assinalar.

Em 16SET70 – na região de PIAI desenrola-se a Operação «BOA PAULADA» intervindo nela dois Grupos de combate da CCAV 2748 reforçados com duas Secções do PEL MIL 267. Em 17SET70 terminou a Operação, sem vestígios nem contactos com o IN.

Em 22SET70 – na região de CAMPÃ – MUDO – MARCO 60 – SINCHÃ COI – RIO UNCULÉ – CANQUELIFÁ, tem início a Operação «BELA PRENDA» intervindo nela dois Grupos de combate da CCAV 2748. Em 24SET70 terminou a Operação tendo sido encontrado, entre CANTIRE e RIO CANCONDO, um par de botas ensanguentado, um cunhete de granadas de Canhão S/R e ampolas de Coramina.

Em 25SET70 – um Grupo de combate da CCAV 2748, reforçado com uma Secção do PEL MIL 267, patrulha RIO PÁDUA – RIO CANCONDO – RIO MANPUDUGUÉ, onde montaram armadilhas. No RIO CANCONDO foi encontrado, debaixo de um monte de areia, um par de botas com sangue e dois cadáveres IN que deviam pertencer ao Grupo que flagelou CANQUELIFÁ.

Em 29SET70 – na região CANQUELIFÁ – NHUNHANCA – ANCACHAUA – NIFI, decorre a Operação «BESOURO POP», tomando parte nela dois Grupos de combate da CCAV 2748 reforçados com duas Secções do PEL MIL 267. Em 02OUT70 terminou a Operação, não tendo sido notados vestígios do IN.

sábado, 14 de setembro de 2013

43.º ANIVERSÁRIO DO REGRESSO DA GUINÉ DO BART 2857

NO PRÓXIMO DIA 5 DE OUTUBRO, PELAS 11 HORAS FAR-SE-Á, NO LOCAL DO CONVÍVIO, - QUINTA DOS COMPADRES, EM VISEU, A CONCENTRAÇÃO PARA A CONFRATERNIZAÇÃO DO BART. 2857, DO 43.º ANIVERSÁRIO DO REGRESSO DA GUINÉ.

Como nos anos anteriores, a tua presença é essencial e contamos contigo, acompanhado da tua família.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


CAMARADAS E AMIGOS
DO BATALHÃO DE ARTILHARIA N.º 2857 GUINÉ 1968 A 1970

No próximo dia 13 de Outubro de 2012 irá realizar-se o 42.º Aniversário da nossa chegada da Guiné.

Este ano por coincidência irá casar o dia do casar o dia do Convívio com o dia da chegada, dia 13 de Outubro de 1970.
Portanto, por todas as razões temos que comparecer. Da mesma forma como tem acontecido em anos anteriores.
Este ano, julgo que será mais atractivo devido à forma de o mesmo se realizar subindo o Rio Douro a bordo de um barco e, o Almoço/Convívio se realizar a bordo.

Mais uma vez vamos poder voltar a confraternizar com todos os nossos amigos e camaradas que, pelo menos, desde o ano passado, não os vimos e, dar aquele abraço de grande amizade e solidariedade.

Como sabemos os tempos das nossas vidas não estão por forma a podermos gastar muito dinheiro, mas estou certo que iremos fazer um sacrifício e darmos aquele abraço e estarmos juntos mais uma ano.

Obrigados a Todos.
Todos a Vila Nova de Gaia